Quando a noite do dia 24 é só de vocês
- Varanda dividida ao meio. Cada um enfeita metade da varanda ou da janela com um pisca-pisca e vinte reais. O resto sai das gavetas: tampinha, fita de presente do ano passado, papel-alumínio, folha de costela-de-adão. Às dez, desçam até a calçada e julguem lá de baixo, do jeito que os vizinhos vão ver.
- Ceia de padaria. Cada um vai sozinho à padaria ou ao mercado com quarenta reais e compra três coisas para a ceia, sem combinar nada com o outro. Às onze, montem tudo numa tábua na mesa de centro: o que repetiu, o que ninguém esperava, a rabanada pronta. Ninguém liga o fogão no dia mais quente do ano.
- Duelo de “Então é Natal”. Cada um tem dez minutos para achar a versão mais improvável da música: forró, rock pesado, sertanejo, coro infantil desafinado no YouTube. Toquem uma de cada vez, sem dizer de quem é qual, e votem. Quem perder canta a original inteira, de pé.
- Bingo dos comerciais de Natal. Antes da novela, desenhem duas cartelas com: Papai Noel de bermuda, família sorrindo numa mesa farta, panetone caindo em câmera lenta, neve falsa num país tropical. Marquem nos intervalos. Quem completar a linha escolhe o filme de amanhã.
- Piscina de plástico na laje. Encham uma piscina infantil com a mangueira à tarde, no quintal ou na laje, e esperem escurecer. À noite, sentem dentro com a água pela cintura, o pisca-pisca piscando e duas taças na borda. É o encontro mais fresco que dezembro permite.
- Missa do galo e a volta a pé. Mesmo que vocês não sejam de igreja, vão à missa do galo na paróquia mais perto (confiram o horário, muitas adiantaram para as dez) e voltem andando pela rua quente, com cheiro de ceia saindo das janelas e música de cada casa.
Se a conversa precisar de um empurrão, as perguntas para conhecer alguém ainda surpreendem quem já está junto há anos. E se vocês quiserem mesmo cozinhar, o baralho de jantar romântico em casa cuida disso.
Anna: O Sam encheu a piscininha às quatro da tarde e às dez a água estava morna como banho. A gente ficou lá dentro até meia-noite e meia, e a vizinha de cima mandou um pedaço de panetone num prato.
Quando vocês querem ver as luzes da cidade sem multidão
- Caça aos presépios. Passem por igrejas, praças, vitrines de padaria e portarias de prédio e deem nota a cada presépio: mais bichos, Rei Mago mais estranho, Menino Jesus mais fora de proporção. Escolham o campeão antes de chegar em casa.
- Pedalada noturna pelas luzes. Depois das dez, quando o asfalto esfriou, peguem duas bicicletas, as de vocês ou as compartilhadas, e pedalem devagar pela orla, pelo parque ou pela avenida enfeitada. Parem onde quiserem, sem rota.
- Orla depois das onze. Andem pelo calçadão de chinelo, com a brisa do mar e as luzinhas presas nos postes, e parem num quiosque para dividir uma água de coco. Quem mora longe da praia faz o mesmo na beira do lago ou do rio da cidade.
- Vitrines do shopping na última meia hora. Em dezembro muitos fecham só às onze ou à meia-noite: entrem meia hora antes, quando o shopping finalmente esvazia e o ar-condicionado vale como presente. Em cada vitrine, cada um aponta o que daria para o outro se dinheiro não fosse problema. Ninguém compra nada.
- As luzes vistas da água. Nas cidades com travessia de barca ou balsa, como entre o Rio e Niterói, peguem uma das últimas viagens da noite e fiquem do lado de fora. A cidade acesa vai ficando para trás e o vento resolve o calor.
Sam: A gente achou um presépio numa borracharia com um pato de borracha no lugar do boi. Ganhou de todos os das igrejas, sem discussão.
Quando tem duas ceias e sobra só o intervalo entre elas
- O trajeto entre as ceias. Se a ceia de uma família é às nove e a da outra à meia-noite, o carro entre as duas é de vocês. Parem meia hora numa padaria 24 horas, comam um pão de queijo em pé no balcão e só depois sigam viagem.
- Ir buscar gelo. Em toda ceia o gelo acaba, e alguém precisa ir até o posto. Levantem a mão juntos. São vinte minutos de janela aberta, rádio ligado e nenhum parente perguntando quando vem o casamento.
- Presentes no carro, com o ar ligado. Antes de subir para o apartamento da outra família, troquem os presentes de vocês dentro do carro, ainda na rua, com o ar-condicionado no máximo. Ninguém assiste e ninguém pergunta quanto custou.
- A manhã do dia 25 antes do almoço. Depois da ceia todo mundo dorme até tarde. Levantem às sete, saiam sem acordar ninguém e vão à praia, à praça ou à padaria da esquina com a cidade ainda vazia. Voltem a tempo do almoço com o que sobrou da ceia.
Anna: Na casa da minha avó, ir buscar gelo virou código. Todo ano a gente se oferece, e todo ano o gelo demora quarenta minutos para chegar.
Quando vocês trocam presentes e ninguém aguenta mais kit de sabonete
- Vinte reais na loja de variedades. Cada um entra com vinte reais e vinte minutos numa lojinha de R$ 1,99. O presente tem que ser muito útil ou muito ridículo, e quem dá precisa explicar a escolha numa frase só.
- Um dia das férias já marcado. Em vez de um objeto, deem um dia de janeiro com tudo definido: data, hora, lugar, que roupa levar. Coloquem nos dois celulares antes de entregar, para não ficar só na promessa.
- Um presente que cabe numa caixa de fósforo. A regra é uma só: tudo tem que caber numa caixinha de fósforo. Uma cópia de chave, uma semente, um anel de tampinha, um bilhete dobrado oito vezes. A graça está na engenharia.
- Adotar juntos uma cartinha. Em muitas cidades existem campanhas de cartinhas de crianças para o Papai Noel (a dos Correios é a mais conhecida). Vejam se há uma aberta perto de vocês e até quando dá para entregar, escolham uma carta juntos e passem um sábado comprando o que a criança pediu.
- Uma muda para plantar no dia 25. Deem uma muda de pitanga, de acerola ou de manjericão e plantem juntos na manhã de Natal, no quintal ou num vaso grande. Em boa parte do país dezembro é mês de chuva, a muda pega, e daqui a um tempo tem fruta (ou manjericão para o macarrão).
Para os pequenos carinhos de qualquer dia do ano, não só em dezembro, existe o baralho de surpresas para o namorado.
Quando o décimo terceiro já foi embora
- A cidade vazia no dia 1º de manhã. Saiam a pé às nove da manhã do primeiro dia do ano, quando a cidade parece abandonada: lojas fechadas, ruas sem carro, resto de fogos no chão. Andem pelo meio de uma avenida e contem quantos lugares estão abertos.
- Uma cantata de Natal de graça. Em dezembro, muitas igrejas, praças e escadarias de prédios antigos recebem cantatas gratuitas. Escolham uma, fiquem lá no fundo, de mãos dadas, e vão embora quando der vontade.
- Degustação às cegas de panetone. Comprem os três panetones ou chocotones mais baratos do mercado, cubram as caixas com papel e cortem uma fatia de cada. Deem nota para massa, frutas e chocolate. Quem errar a marca do favorito lava a louça.
- Duas cadeiras na calçada. Como no interior, levem duas cadeiras para a calçada depois das nove, quando o calor sai do asfalto. Cumprimentem quem passa, comentem as luzes da casa da frente e fiquem até a rua esvaziar.
- Picolé na praça, um sabor cada. Comprem dois picolés no carrinho, troquem na metade e deem nota. Repitam toda noite até o Réveillon, com sabores diferentes, e no dia 31 vocês terão o ranking do verão.
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Réveillon a dois, sem festa
- As sete ondas feitas direito. De roupa branca, entrem no mar até os joelhos na hora da virada e pulem sete ondas, um pedido em cada uma, alternando quem pede. Levem uma flor branca para deixar na água. Sem praia por perto, vale a mangueira no quintal e sete pulos sobre o jato.
- A roupa branca escolhida pelo outro. Cada um monta o look de Réveillon do outro, só com o que já está no armário, e escolhe também a cor da roupa de baixo pela simpatia: amarelo para dinheiro, vermelho para paixão, verde para saúde. A entrega é às dez, sem direito a troca.
- Quiz do ano antes da contagem. Cada um prepara dez perguntas sobre o ano de vocês dois: em que mês foi a briga por causa do ar-condicionado, qual série vocês largaram no meio. Se faltar ideia, as perguntas para casal responder servem de aquecimento.
- O lugar da virada escolhido de dia. No dia 30, escolham onde vão estar à meia-noite: a laje, um mirante, um trecho de areia longe da queima principal. Vejam como chegar e voltar, e tenham um plano B a dez minutos de casa se estiver lotado.
- Réveillon em quatro fusos do Brasil. O ano chega primeiro a Fernando de Noronha, às onze da noite pelo horário de Brasília; depois a Brasília, à meia-noite; a Manaus, à uma; e ao Acre, às duas. Brindem a cada virada com um gole só, e decidam qual fuso foi o mais bonito.
- Nota para os fogos dos vizinhos. Se vocês não têm vista para a queima grande, subam na laje ou no terraço do prédio e deem nota aos fogos da rua: o mais longo, o mais caro, o mais desastrado, o que disparou às onze e cinquenta por engano.
Sam: A Anna escolheu para mim uma bermuda branca de 2019 e uma cueca amarela. Eu escolhi para ela um vestido que nem servia mais. A gente trocou na hora, rindo, e virou o ano assim mesmo.
Quando dá para dormir fora uma noite
- Réveillon na praia, reservado com meses de antecedência. Pousadas do litoral costumam vender pacote de Réveillon com mínimo de diárias e preço bem acima de um fim de semana comum. Reservem ainda no meio do ano, ou procurem a praia vizinha da famosa, que costuma ter vaga e o mesmo céu na virada.
- A semana morta entre o Natal e o Réveillon. Do dia 26 ao 29, a cidade de praia respira entre uma lotação e outra. Uma ou duas noites nesse intervalo muitas vezes saem bem mais baratas que a semana da virada, e a areia ainda tem espaço para a toalha.
- Subir a serra para fugir do calor. Escolham a cidade de serra mais perto de vocês, onde a noite de dezembro pede uma blusa leve, e durmam lá uma noite entre as festas. Jantem na varanda da pousada ouvindo os grilos, sem ventilador.
- Pousada de cachoeira no dia 1º. Cheguem na tarde do primeiro dia do ano, quando os hóspedes do Réveillon estão indo embora, e reservem só uma noite. O primeiro banho de cachoeira do ano cura qualquer ressaca.
O frio de verdade, com lareira e serra, fica para junho e julho, nas ideias de encontro no inverno. Para mais destinos, há o baralho de viagem de fim de semana a dois.