Quando vocês ainda lembram do que o outro contou
- O canto de praia da outra pessoa. Se no primeiro encontro a pessoa passou cinco minutos falando da praia ou do parque onde passa os domingos, o programa está pronto. Vão até lá e deixem que ela mostre tudo: onde estende a canga, qual barraca serve o milho mais quente, o quiosque onde o dono já sabe o pedido. Todo mundo vira outra pessoa quando é guia do próprio território.
- A lição de casa feita. No primeiro encontro, alguém recomendou um disco, uma série ou um filme antigo, e o outro prometeu ver. Cumpra a promessa antes do segundo, de verdade, e chegue com três coisas anotadas no celular: a cena preferida, a parte que não entendeu, a música que ficou na cabeça. Comecem o encontro pelo veredito, num banco de praça com dois cafés. Quem recomendou vai perceber que alguém prestou atenção.
- O jogo do time da outra pessoa. A pessoa contou que é palmeirense, flamenguista, do Bahia desde criança. Marquem o próximo jogo num boteco cheio dessa torcida, você sem camisa de rival, e deixe que explique quem é quem em campo. Você conhece a pessoa no auge do nervosismo e da alegria, sem precisar dizer nada.
- A caça ao livro no sebo. No primeiro encontro apareceu um livro que marcou a adolescência da pessoa, aquele que sumiu numa mudança. Vão a um sebo grande, dividam as prateleiras e procurem aquela edição. Quem achar primeiro ganha o café. Se não acharem, já existe motivo para outro sebo no próximo sábado.
- O sabor da terra natal. A pessoa veio de outro estado e falou com saudade do baião de dois, da tapioca de rua, do arroz de pequi. Procurem uma feira nordestina, uma casa do norte ou um boteco mineiro na sua cidade e deixem que ela peça tudo e explique cada prato. Você come o que nunca provou, e ela fala de casa sem precisar de pergunta.
Se o primeiro encontro foi ontem e ainda falta assunto para o próximo, as perguntas para primeiro encontro continuam de onde ele parou.
Sam: No primeiro encontro a Anna disse que torce pro Santos e que a família inteira é corintiana. No segundo eu levei ela num bar em Santos pra ver o jogo. Perdemos de três, ela chorou de raiva e depois riu a noite toda.
Quando só sobra uma noite de semana e umas duas horas
- O bar mais antigo da cidade. Procurem o bar ou a lanchonete mais velha que ainda funciona, aquela de azulejo na parede, balcão de mármore e garçom de gravata-borboleta. Peçam o que a casa serve desde sempre, um chope com bolinho de bacalhau ou um sanduíche de pernil, e perguntem ao garçom há quantos anos ele trabalha ali. Cabe entre o trabalho e a hora de dormir, e a história do lugar puxa a conversa sozinha.
- Bate-perna no centro depois do expediente. Às seis da tarde o centro da cidade muda: lojas baixando a porta, galerias antigas, fachadas de cinema que viraram igreja, o caldo de cana da esquina. Andem sem rumo por uma hora e cada um aponta um prédio onde moraria. É de graça e rende conversa sem esforço.
- Mercadinho asiático do bairro. Entrem num mercadinho de produtos japoneses, coreanos ou chineses e cada um escolhe, só pela embalagem, um produto que não faz ideia do que seja. Antes de abrir, o outro dá o palpite: doce ou salgado, de comer ou de passar no cabelo. Abram na calçada e vejam quem acertou. Metade vai ser uma surpresa esquisita, e é aí que está a graça.
- Sinuca no boteco. Uma mesa de sinuca, uma ficha, uma cerveja ou um guaraná. Joguem melhor de três, e quem perde escolhe a próxima música da jukebox ou do celular. Ninguém precisa jogar bem; o boteco inteiro vai dar palpite de qualquer jeito.
- Noite de autógrafos de um desconhecido. Livrarias e editoras fazem lançamento de livro em noite de semana, com entrada livre e, muitas vezes, vinho em copo de plástico. Escolham o lançamento de um autor que nenhum dos dois conhece, fiquem perto da mesa de autógrafos e inventem, baixinho, quem ali é a mãe, o ex, o editor. Comprar o livro é opcional, e às nove vocês já estão na rua.
Se o frio já chegou na sua cidade, as ideias de encontro no inverno foram pensadas para isso.
Quando a vontade é de se mexer
- Bicicleta de aluguel na ciclovia. Peguem duas bikes compartilhadas e escolham um ponto a meia hora dali, pela orla, pela beira do rio ou pela ciclofaixa de domingo: um farol, um píer, o último quiosque. Pedalar lado a lado deixa a conversa mais solta do que ficar cara a cara.
- Frescobol até o centésimo toque. Duas raquetes, uma bolinha e um pedaço de areia molhada. O objetivo não é ganhar, é chegar a cem toques sem deixar a bola cair. Contem em voz alta. Vocês estão no mesmo time desde o primeiro minuto.
- Patins alugados na orla. Aluguem dois pares de patins num quiosque da orla ou na entrada do parque e façam um trecho de ida e volta, devagar, um segurando a mão do outro nas descidas. Quem cair primeiro paga a água de coco no fim. Ninguém fica elegante tentando frear de patins, e isso tira qualquer pose.
- Cachoeira num dia de folga. Separem um sábado, peguem a estrada cedo para a cachoeira mais perto e entrem na água gelada juntos, sem negociação. Depois sentem na pedra quente até secar. Ficar molhado e sem fôlego ao lado de alguém quebra qualquer formalidade que ainda sobrou.
- Corrida de rua de domingo. Inscrevam-se numa corrida de 5 km de bairro, dessas com camiseta e banana na chegada. Não vale correr cada um no seu ritmo: vocês vão juntos, correndo ou andando, e cruzam a linha lado a lado. Depois tirem a foto com a medalha.
Anna: No frescobol a gente travou no 87 três vezes seguidas. O Sam jogou a raquete no mar de raiva e teve que nadar atrás dela. Até hoje ele diz que o vento mudou.
Quando vocês querem rir sem precisar fazer graça
- Plateia de programa de auditório. Vários programas de TV distribuem ingressos de plateia de graça pela internet. Vocês ficam horas sentados, aplaudem quando a placa manda, veem o apresentador sem maquiagem no intervalo e saem com assunto para a semana inteira.
- Circo de lona. Quando um circo armar a lona num terreno da cidade, comprem dois ingressos para a sessão de sábado e sentem longe da primeira fila, a não ser que queiram virar parte do número do palhaço. Pipoca doce, trapezista, mágico que erra o truque de propósito. Rir junto com uma arquibancada de crianças é contagiante.
- Pesque-pague. Aluguem duas varas, comprem a isca e passem uma tarde tentando pegar uma tilápia. A pessoa que pescar primeiro decide se o peixe vai para a cozinha do lugar ou de volta para a água. Ninguém fica bonito segurando um peixe que se debate.
- Ensaio de escola de samba. Na temporada antes do Carnaval, as escolas abrem os ensaios na quadra e muitas fazem ensaio técnico de graça na avenida. Aprendam o refrão do samba-enredo até o fim da noite. Vocês não precisam sambar bem: ninguém ao redor está prestando atenção.
- Feira de antiguidades de domingo. Andem pelas barracas sem intenção de comprar. Cada um escolhe o objeto mais estranho da feira, um telefone de disco, um troféu de bocha de 1978, um abajur em forma de peixe, e inventa quem foi o dono. Gosto se revela mais em uma hora de tralha do que numa noite de perguntas.
Para mais trinta programas, abram o baralho de ideias de date.
Quando dá vontade de algo mais calmo e mais perto
- Uma tarde numa loja de vinil. Entrem numa loja de discos antiga, dessas de galeria no centro, e cada um escolhe um disco para o outro ouvir no toca-discos do balcão. Pode ser um samba de 1975, um rock nacional dos anos 80, algo que diga alguma coisa sobre você. Comprar é opcional.
- Aplaudir o pôr do sol. Em vários pontos do país, como o Arpoador, no Rio, ou a praia do Jacaré, na Paraíba, a plateia aplaude quando o sol some no horizonte. Cheguem meia hora antes, sentem na pedra ou na mureta e batam palmas junto com os desconhecidos. É bobo e é bonito ao mesmo tempo.
- Lua cheia na laje. Numa noite de lua cheia, subam na laje de um de vocês ou no terraço do prédio com um binóculo, duas cadeiras de praia e uma garrafa térmica. Procurem as crateras, depois desliguem a lanterna do celular e fiquem só olhando. É silencioso, é perto de casa e ninguém precisa preencher a pausa.
- O jornal do dia em que vocês nasceram. A Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional tem jornais antigos digitalizados, de graça, na internet. Levem um notebook a um café tranquilo, sentem do mesmo lado da mesa e procurem a capa do dia em que cada um nasceu: a manchete, o anúncio de geladeira, o preço do pão. Anotem tudo num caderno só.
- Canto gregoriano no domingo. Alguns mosteiros antigos, como os de São Bento, mantêm a missa de domingo com canto gregoriano. Mesmo sem ser religioso, dá para sentar no fundo e ouvir aquele som enchendo a nave por meia hora. Depois saiam em silêncio e procurem um café por perto.
Quando a conversa ficar mais quieta e vocês quiserem ir mais fundo, as perguntas para conhecer alguém passam do básico.
Anna: Achei que a hemeroteca ia ser chata. No dia em que o Sam nasceu, a manchete era sobre a inflação e o anúncio da página dois vendia um fusca. A gente riu tão alto que o café inteiro virou para olhar.
Quando a noite está acabando e ninguém quer ir embora
- O dogão como ponto final. No começo da noite, combinem onde ela termina: o carrinho de cachorro-quente da praça, o pastel da madrugada, o podrão que abre até as três. O resto pode mudar, mas o ponto final fica. Assim o fim do encontro vira algo esperado, e não uma despedida apressada.
- Deixar passar um ônibus. No ponto, quando o ônibus de um de vocês aparecer na esquina, deixem passar. Só esse. O próximo leva quinze minutos ou mais, e esses quinze minutos de calçada costumam ser os melhores da noite.
- Até a baldeação. Peguem o último metrô juntos e sigam até a estação onde um precisa trocar de linha. A despedida acontece ali, na escada rolante, e não na porta de casa. Dá uma volta a mais na noite sem que ninguém precise convidar.
- O terceiro encontro no guardanapo. Antes de pedir a conta, escrevam num guardanapo de boteco o dia, o lugar e uma coisa que cada um vai levar. Tirem foto, e um de vocês guarda o papel na carteira. Um plano com data vale mais do que um “vamos repetir”.
- O último andar do estacionamento. Antes de cada um ir para casa, subam de carro ou a pé até o último andar de um estacionamento aberto, de shopping ou de prédio, e olhem a cidade acesa lá de cima. Dez minutos encostados na mureta, sem plano nenhum. É o tipo de lembrança que aparece no dia seguinte, no meio de uma reunião.
Sam: Deixei passar dois ônibus, não um. A Anna percebeu no segundo e não disse nada. Acho que foi aí que eu soube que ia ter um terceiro encontro.
Mais listas de encontros e perguntas estão nos artigos.